sábado, 9 de julho de 2011

Gotas

written by Larissa Rainey at 02:26 1 comentários.
Quando fecho meus olhos, gosto de imaginar que está chovendo e fazendo sol simultaneamente. O sol machuca minha pele, faz com que ela arda, sofra, queime. Mas a chuva é o antídoto, e logo minha pele volta ao normal. É como se a chuva curasse cada ferida, cada imperfeição, cada falha e levasse embora todas as minhas mágoas, os meus ressentimentos, e o meu ódio. A cada gota eu me torno uma pessoa melhor, mais sábia, consciente, capaz e livre. A cada raio de sol, eu lembro porque estou viva. Ainda tenho que me queimar muito, me machucar, para aprender. A evolução exige isso de todos nós. Nenhuma gota, nenhuma lágrima e nenhum raio de sol é em vão. Cada olhar, cada palavra, cada gesto, cada sorriso, entra para a nossa memória e ajuda a construir nosso acervo pessoal. E cada vez mais construímos nosso destino, vivemos, levantamos a cabeça, caímos e o ciclo sempre continua.
Eu estou aprendendo, lentamente, a perder meu medo de me queimar. Pois sei que após a queimadura, vem a chuva deliciosa e restauradora, para levar embora todos os meus males.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Review: A morte lhe cai bem (1992)

written by Larissa Rainey at 21:29 0 comentários.

Se você assistiu “Meninas Malvadas” e achou que era o filme definitivo sobre brigas entre mulheres, volte um pouco mais no tempo. Duas palavras definem bem esse filme de 1992: “bitch fight”. Meryl Streep é Madeline Ashton, uma atriz que tenta alcançar o estrelato na Broadway de 1978. Já Goldie Hawn é Helen Sharp, uma escritora que também tenta sucesso em sua carreira. Helen é noiva do cirurgião plástico Ernest Menville (interpretado por Bruce Willis), que possui certa notoriedade. Ernest encanta-se com Madeline e logo casa-se com ela, deixando a pobre Helen sozinha. Não é a primeira vez que Madeline rouba um homem de Helen, e a separação de Ernest a deixa desolada.
Sete anos depois, Helen está solteira, com vários quilos a mais, morando num apartamento bagunçado e assistindo TV o dia inteiro. Ela é despejada e a mandam direto para um manicômio. Após interpretar errado o que a terapeuta lhe diz, Helen tem um insight e decide de uma vez por todas se vingar de Madeline.
                Avançando mais sete anos na história, vemos então o que ocorreu após o casamento de Madeline e Ernest: ela se tornou uma atriz de sucesso, enquanto a carreira de Ernest declinou e ele agora trabalha como maquiador de cadáveres, enquanto usa a bebida como válvula de escape. Madeline é vaidosa ao extremo e tenta de qualquer maneira ficar mais jovem. O relacionamento entre o casal é péssimo: eles não dormem juntos e ele se refere a ela como “coisa”. Até que eles recebem um convite de Helen – para que compareçam a noite de autógrafos de seu mais novo livro ironicamente intitulado “Eternamente Jovem”.  Madeline vai até uma clínica estética para parecer mais bonita que a rival, e após discutir com uma funcionária, ela recebe um cartão de um funcionário com o endereço de uma mulher que “ajudaria” em seu problema. Ela dá as costas e vai para a festa.
                Na noite de autógrafos, Madeline espera ver a antiga amiga com apenas alguns quilos a mais, e se espanta quando vê Helen estonteante e recebendo todas as atenções. Morrendo de inveja, cumprimenta a amiga – que diz não a culpar pelo o que aconteceu, e que Ernest era o culpado. Quando Madeline se afasta, ela vê Helen e Ernest conversando em um lugar afastado. Ficando estressada e se corroendo de inveja, ela pega o carro e vai embora. Helen assegura a Ernest que não está magoada com ele, pois sabe que Madeline o seduziu.
                Helen está disposta a fazer de tudo para destruir Madeline e ficar com Ernest – e Madeline está disposta a mostrar para Helen que ela ganha sempre, não importa o que custar. E essa não é apenas uma briga entre duas mulheres que se detestam e querem provar que uma é melhor que a outra. Fugindo do clichê, “A morte lhe cai bem” é um filme cômico e levemente mórbido. A interpretação de Meryl está engraçadíssima, mas quem se destaca, no final, é Bruce Willis, interpretando um Ernest completamente surtado após ver até que ponto as duas chegaram para se superarem. É essa a graça do filme – observar cuidadosamente os planos extremistas de Helen e Madeline. Haja planos... E poções de procedência duvidosa.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Lembram de quando eu costumava escrever?

written by Larissa Rainey at 17:46 0 comentários.
Escrevia textos, histórias, poemas, crônicas.
Eu tinha imaginação e inspiração.
Mas atualmente, só tenho páginas em branco, lágrimas e Earl Grey.
Sem vinho ruim.
Sem bolo de limão.
Sem doces personagens sussurrando seus dramas em meus ouvido.
Sou obrigada a conviver comigo mesma diariamente.
E descobri algo.

Sou incrivelmente insuportável.
E admiro meus amigos por me suportarem em doses homeopáticas.

Mas sei lá, né.
Um dia eu aprendo a me suportar.



segunda-feira, 2 de maio de 2011

A arte de desenvolver armas

written by Larissa Rainey at 20:55 3 comentários.
       Acredito que um indivíduo é tão perfeito e tão falho em sua própria individualidade que ele perde no meio do caminho. Nós, seres humanos, somos demais e não somos nada ao mesmo tempo. Na primeira oportunidade, na primeira brecha entre o espaço e o tempo, caímos e morremos. Mas, se quisermos, conseguimos conquistar e nos desenvolver de maneira soberana e perfeita. 
       Eu sou um ser humano. Eu sou alguém que sofre pelas coisas pequenas, pelos detalhes minúsculos, por um tom de voz mais elevado, por um comentário mais ácido, por uma expectativa não concretizada. Eu sou vulnerável ao ponto de me machucar com as minhas próprias palavras. Odeio minhas lembranças e odeio minha personalidade. Não nasci para me misturar com qualquer um, não nasci para ser amiga de todos, não nasci para ser mais uma. Eu sou tão perfeita e tão falha que sofro justamente por isso. A parte falha tenta de qualquer modo ser perfeita, e a parte perfeita não se mostra. A minha perfeição se esconde que sempre que procuro por ela, nunca a encontro. Talvez por isso ela seja tão perfeita. Ela quer que eu a rastreie, a cace, e vá até o inferno para buscá-la.
      E minha parte falha resolveu que quer entrar em equilíbrio com minha perfeição. "As duas têm que se complementar", ela me diz. "Ah claro, e como você pretende fazer isso sendo tão... falha?" eu respondo.
      Sozinha, não consigo. E por mais independente que eu seja, por mais acostumada que eu esteja com a solidão, eu sei que não conseguirei o meu equilíbrio dependendo apenas de mim. Eu me traio, eu me saboto. Então, a solidão não é uma opção. Mas eu tenho um pouco de sorte, e tenho um pequeno exército - pelo menos é assim que eu os chamo, secretamente. Eles percebem quando eu preciso deles, eles sabem quando eu preciso ser carregada para longe do lago, eles sabem quando eu estou prestes a afogar. E eles me carregam e me dizem o que eu preciso ouvir. Veja bem, eles dizem o que eu preciso ouvir. O que é muito diferente do que eu quero ouvir. Eles não me enganam. Eles acreditam em  mim e eu cada vez mais dou motivos para eles acreditarem. Já que são meu exército, tenho que fazer com que meu exército confie em mim. E não posso fazer isso se eu continuar caindo a toda hora. Eles me ajudam a lutar, me inspiram, e eu os amo com a intensidade de mil sóis.
     Mas na hora da batalha, meu exército não pode entrar na arena comigo. É a minha guerra, e não a deles. A batalha é minha e o sangue que deve escorrer é o meu. Mas, novamente, não consigo lutar de mãos vazias. Acredite em mim, eu já tentei. E os resultados foram tão desastrosos e inúteis que não repeti o erro. E então eu criei algo que gosto de chamar de: "A arte de desenvolver armas". Alimenta o ego. 
      Desenvolver armas é tão difícil quanto batalhar. Chega a ser até mais difícil. Porque de nada adianta você desenvolver uma arma de qualquer jeito e depois ela ser destruída. Desenvolver uma arma leva tempo, paciência, e muito da sua bagagem emocional. Você tem que estar emocionalmente forte para desenvolver a arma que você mais precisa. Qualquer sentimento de luta e superação tem que estar concentrada naquela arma. As decepções e depressões precisam estar de fora, caso contrário sua arma estará fraca. Acredite em mim, eu venho criando armas desde os doze anos. As primeiras não duraram no primeiro segundo de batalha. Leva tempo até descobrir o que você precisa, do que elas devem ser feitas, e qual arma deve ser usada em qual batalha. É uma arte, como eu disse anteriormente, e toda arte leva tempo para ser desenvolvida em plenitude. 
     Hoje, enquanto eu estava em uma batalha, eu parei para pensar. E minhas armas estão tão mais fortes, e tão mais poderosas, que elas quebram o inimigo em vinte mil partes. Concluí duas coisas. A primeira, é que eu finalmente virei uma mulher. E a segunda, é que foi com sangue escorrendo das minhas mãos que eu descobri minha perfeição.
     Não sou perfeita quando estou equilibrada.
     Só sou perfeita e plena com sangue escorrendo das minhas mãos, durante uma batalha.
     Se eu nasci perfeita, nasci lutando. E só morrerei quando eu quiser perder a batalha.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

E aí, gostosa?

written by Larissa Rainey at 14:03 2 comentários.
Qual mulher nunca ouviu essas palavras enquanto andava na rua?
Se você nunca ouviu, de duas uma: ou você está mentindo, ou você tem muita sorte.
Eu já ouvi. Mais do que deveria, afinal de contas eu não faço parte do estereótipo 'gostosa'. Talvez seja o cabelo que chame atenção. E antes que você venha falar algo para mim, eu não saio de casa com roupas provocativas à la Geisy Arruda - pergunte a quem me conhece e sai comigo.
Outro dia, eu estava voltando do psicólogo. E tem um prédio branco que às vezes eu ouço o porteiro - veja bem, porteiro - me elogiar pelo interfone. Simplesmente usando um instrumento de trabalho para me cantar. Detalhe: eu sempre verifico se têm outra mulher passando, e raramente têm. 
Não, eu não estou me gabando. Pelo contrário. Se tem uma coisa que eu odeio nessa vida é passar na rua e um completo estranho falar que eu sou linda, gostosa, branquela, ou perguntar onde é que eu estou indo para estar tão linda. Não, eu não considero isso uma massagem no meu ego. Eu não gosto desse tipo de atenção, acho nojento, vulgar.
Pois bem, voltando ao porteiro do prédio branco. Aquele dia eu fui pro psicólogo com um vestido preto, um pouco acima do joelho. E quando eu digo "um pouco acima do joelho", é um pouco mesmo. Não era um vestido colado, era bem soltinho. Um vestido completamente normal para se usar no calor maldito que somos agraciados neste país tropical. E eu estava chegando em casa quando ouço o porteiro: 'Nossa, hoje você está muito linda hoje'. 
Me chamem de dramática, de criança, de problemática, mas eu não gosto desse tipo de comentário vindo de um completo estranho. Ele me conhece? Não. Ele tem intimidade o suficiente para comentar sobre o meu visual? Não. Fora dizer que ele está em horário de trabalho e a última coisa que ele deveria fazer é ficar cantando mulheres na rua. Moral da história: eu não passo mais por aquele prédio e atravesso a rua só depois.
E não me venha falando que "homem é homem", porque a história não é desse jeito. Tem muito homem por aí que tem a decência de não cantar mulheres no meio da rua. É que nem quando falam que o traje da mulher contribui para o estupro. Contribui sim, se o homem é um filho da puta que não sabe controlar o próprio corpo. O cara que não sabe se controlar e ter discernimento de que é errado estuprar uma estranha na rua e a culpa é nossa? Então ótimo, vou sair por aí agarrando o primeiro cara sem camisa que eu ver na rua e drogá-lo e forçá-lo a me comer e se reclamarem eu digo que as roupas dele estavam reveladoras e eu não pude me controlar. 
Estamos no século 21, não na idade das cavernas. Um homem não pode simplesmente pegar a mulher pelo cabelo só porque achou bonita e falar que "é dele".
Homens que ficam cantando mulheres no meio da rua não são homens. São meros espelhos do que um homem realmente deveria ser. Não estou falando para um homem ser completamente cavalheiro e perfeito e pedir permissão para as autoridades antes de falar qualquer coisa para você. Só que tem a diferença de você virar para alguém que você conhece e falar que essa pessoa é bonita do que gritar um "GOSTOSA" para uma mulher qualquer na rua. É preciso apenas uma boa dose de educação e bom senso.
Não é legal, não é galantedor. É nojento, horrível, ridículo, idiota. O homem que faz umas coisas dessas nunca tem noção do impacto que pode causar na mulher. Algumas gostam, acham bonito e fazem de tudo para esse tipo de reação. Eu não julgo (muito), cada um sabe o que quer. Só que nem sempre elas gostam, e a parte da população feminina que não gosta (eu) gostaria de mandar ir tomar no cu todos os filhos da puta que fazem isso.
Obrigada.
 

Larissa Rainey Copyright © 2012 Design by Antonia Sundrani Vinte e poucos