quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Again and again

written by Larissa Rainey at 12:15 1 comentários.
Já perdi a conta de quantas vezes eu já adotei essa atitude, quantas vezes já postei esse tipo de coisa depois de estar na fossa. Eu me sinto como se eu fosse uma alcoólatra, sabe? Depois de beber a garrafa inteirinha de vodka, o alcóolatra promete a si mesmo: "é a última garrafa... o último gole...". Aí ele fica cinco minutos com a garganta seca e depois abre o armário enlouquecido a procura de outra garrafa. Eu sou exatamente assim, mas sem o álcool. A comparação é péssima, mas é verdade. Só que eu não sou viciada em álcool... e sim na minha própria tristeza.
Mais uma vez, eu vou me reerguer. Mas dessa vez, com mais calma. Cair eu sei que eu vou. Sozinha eu sei que não estou. Perfeita eu sei que eu não sou. Mas isso não me impede de voar com minhas asas recém-conquistadas...

(Originalmente escrito em 25 de novembro de 2009; ainda relevante.)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Desconstruindo uma Rainey

written by Larissa Rainey at 00:31 0 comentários.
Andar em círculos cegamente, sem pensar em porque anda em círculos. Me perdi há tanto tempo atrás, que mal sei o que é andar em linha reta. Todos os dias, os mesmos ciclos e círculos que se contorcem e se convergem em outros ciclos e círculos mas que no final das contas são iguais, sempre. O que senti ontem, sinto hoje e sentirei amanhã. A lógica não muda, jamais. Ano passado, nesta mesma época, recordo de ter sentido as mesmas coisas.
Uma perda de espaço. Um desperdício de tempo. As palavras cansaram-se de mim, mas e eu que não me cansei delas? Eu as procuro, para que desafiem a minha rotina. Mas elas fugiram, sumiram, e aqui estou perdida entre mil lágrimas e o silêncio que cai.
E eu ainda me pergunto, por que eu me importo em escrever. Ou fazer qualquer outra coisa. Existe algo dentro de mim que me anula. O meu coração é gigantesco, e lá cabem todos os sonhos do mundo. (Frase bem Fernando Pessoa, essa) Mas por que a realidade que eu pinto com a minha imaginação parece tão impossível e fora de alcance? Então encontro-me frustrada, pois a minha imaginação é mil vezes melhor do que essa realidade sem cores. Eu fiquei tão viciada em imaginar, que nem o nome com o qual me apresento aqui ou em qualquer outro lugar da internet é verdadeiro. Larissa sim - Rainey não. 
Morton Rainey... eu gosto de pensar em você. Muitas vezes ao dia. Mas você é só um personagem de filme, não existe na vida real. Também é personagem de conto, mas eu prefiro você no filme - estranhamente. Por que eu escolhi o seu sobrenome, Morton? Eu e você somos muito parecidos. A vida bateu na nossa cara e a gente teve que se virar. E nos viramos. Da melhor maneira? Obviamente, não. E a nossa maneira foi bem parecida. Claro que as nossas histórias terminaram de jeitos diferentes - e a minha não terminou, veja bem. Mas foram caminhos tão parecidos, que muitas vezes me sinto... como se você fosse a representação do que poderia acontecer. Ou sei lá, como se você existisse dentro de mim. Ou que eu existo dentro de você, como se o Stephen King no momento que te criou tivesse resolvido representar todas as pessoas como eu. Ou será que eu deveria mandar tudo ir pra puta que pariu?
Acontece que, Morton meu querido (vou te chamar assim e ponto), eu não sou só uma garota que roubou seu sobrenome porque você foi interpretado pelo Johnny Depp. Te conheci através do Johnny, claro, mas você se tornou tão singular que raramente lembro dele quando te vejo. Gosto de pensar que o Johnny te personificou, e muito bem aliás. Melhor do que o final medíocre que te deram no conto. Respeito muito o Stephen, mas ele poderia ter sido mais genial ao fechar a sua história. Mas voltando ao fato de eu ser uma garota que roubou seu sobrenome... Uma vez, fui assinar um papel importante e quase escrevi Larissa Rainey. Esse sobrenome, esse Rainey, essa couraça, essa armadura, me protege de uma certa maneira que sou mais Rainey do que qualquer coisa. 
Eu só queria que você realmente existisse. Para me ajudar numa hora como esta. Ninguém entende. As pessoas se tornam felizes com o tempo, arranjam uma vida. E eu continuo presa aqui, chorando, mas ninguém entende o porquê e pra ser sincera, nem eu entendo. Eu não entendo essa onda de tristeza que me invade todo santo dia, batendo nas minhas costas, como se elas fossem o mar. Todo dia, uma pequena tempestade. 
Essa sou quase eu, quase desconstruída. Porque pra eu me revelar inteiramente e me desconstruir inteiramente... haja silêncio.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Descansar

written by Larissa Rainey at 21:16 1 comentários.
Fechar os olhos, fechá-los para o mundo de novidades
Nada enxergar, contemplar o escuro
A luz domina meus sentidos, quero mais é me deixar entorpecer
Quero sentir o calor do cobertor
E a maciez do travesseiro
Porque já desisti do calor humano
Quero me afundar num mundo de sonhos, pois a realidade não me satisfaz
Quero sonhar com um amor imperfeito
Quero sonhar com as risadas que não dei
Com os beijos que nunca receberei
Quero o escuro confortador
Pois tenho mais medo do que me espera quando o sol está no céu
Do que quando estou em minha cama, imersa em sonhos
Contemplando nada mais do que a escuridão do meu quarto
Quero fechar os olhos e dormir
E senhor, quando for me abandonar,
Coloque o relógio para despertar apenas quando o mundo valer a pena.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Jeudi

written by Larissa Rainey at 17:06 0 comentários.
O momento se perde, se fragmenta em mil pedaços pelo chão. O coração chora, estremece com a visão dos pedacinhos espalhados. Eles não deveriam estar espalhados - é contra a ordem. Aqueles gritos são contra a ordem do mundo. Do seu mundo. Aqueles gritos, aquelas palavras duras que saem daqueles lábios. As palavras poderiam ser um pouco mais suaves, mas não são. Nunca são. Se o coração pedir por delicadeza, por um momento de compreensão, recebe exatamente o contrário. Recebe gritos. Recebe falta de tato. E o coração não vive sem tato. Mas ele tem que continuar. Precisa continuar pulsando, caso contrário ela morre. A pessoa que tem o coração não pode morrer. Não que ela não queira, de vez em quando. Mas a necessidade é maior. Então, ela recolhe cada pedaço do momento que se perdeu. Aproveita a viagem e recolhe os pedaços do coração que se partiu com cada grito, invariavelmente. Consegue colar tudo de volta, no lugar certo. Sente-se orgulhosa. Ama a si própria, não precisa mais do amor daquela que lhe deu a vida. É livre, é poderosa, finalmente livre! Não precisa mais ser amada - o amor que sente por si mesma basta.

O dia termina, e outro começa. 

Com o outro dia, exibe seu bom humor. Seu amor próprio. Faz as coisas que lhe apraz, tendo apenas pensamentos leves. Pensa que alguém ficaria orgulhoso, ou ao menos, feliz com sua mais nova conquista. Mas não. Não ouve nada, além de gritos. A felicidade se perde, se transforma num mero momento, num mero segundo num dia de 24 horas. As coisas que ama são subjugadas pela outra, que crê ser melhor. E ela vê os fragmentos no chão... e se odeia. Maldito ciclo!

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Ao mundo, minha última carta

written by Larissa Rainey at 18:43 2 comentários.


E aqui estou, presa entre essas quatro paredes acinzentadas. O contato com o mundo exterior já deixou de ser realidade há muito tempo. A carcerária colocou uma mesa, uma cadeira, papéis em branco e uma caneta na cela. Pediu que eu escrevesse minhas últimas palavras a um ente querido. Sim, possuo entes - queridos, nem tanto.
Resolvo então escrever para o mundo, pois foi ele que me criou e me moldou. A criatura obscura que hoje sou, foram vocês que criaram. Eu fui a vítima infeliz de uma combinação cruel do destino. Mas pararei de acusá-los e contarei minha história do modo que realmente aconteceu.
Feliz eu era, com uma vida simples e sem muita agitação. Casei-me com um contador comum, que tinha um emprego estável numa empresa estável. Eu ocupava minhas horas dando aulas de matemática para jovens que não se importavam. Não tínhamos filhos, mas estes estavam sempre em nossos planos.
Como vocês podem imaginar, algo ocorreu para que esta paz fosse perturbada. O casarão ao lado da minha casa fora posto a venda, e logo compradores apareceram e se tornaram os novos proprietários. O que eu nunca poderia imaginar era que Vivian tinha comprado a casa e se tornado minha vizinha.
Para não voltar mais ainda no tempo, darei-lhes uma simples definição de quem Vivian era: uma mentirosa mesquinha e sem escrúpulos, que arruinara a minha infância. Ela era a típica menina malvada, que inventava histórias sobre outras meninas e jogava uma amiga contra a outra. E ela se divertia. O que ela não esperava é que um menino apaixonado por ela, o infeliz Edmund, fosse acatar a sua ordem macabra. Vivian era a luz dos olhos de Edmund, e ele faria tudo para tê-la: inclusive romper a pureza de uma inocente e triste colega de classe. Obviamente, essa colega era eu, e fui obrigada a sentir as mãos sujas de Edmund me empurrando em um beco escura e invadindo cada pedaço do meu corpo.
Tê-la como vizinha agora que a escuridão tinha finalmente se dissipado era algo que eu não poderia tolerar. E Vivian bater em minha porta como se fossemos amigas, eu não toleraria. Ela havia se casado com um belíssimo advogado, e eles viviam elegantemente. Eles tinham três lindos filhos, todos loiros e de olhos azuis. A família perfeita, a família que seria utilizada para uma propaganda de margarina.
Virei-me para meu marido, um belo dia, e anunciei que faria um jantar para Vivian e sua linda família. Ele, como se pressentisse algo errado e psicótico em minha idéia, perguntou se eu realmente queria aquilo. Ele sabia de toda a história, naturalmente. Eu afirmei, dizendo que o que estava no passado morrera no passado.
Essa é a mentira mais velha do mundo. A memória e o meu corpo nunca poderia fazer com que eu esquecesse o que Vivian e Edmund fizeram. E se ela tivesse esquecido do que fizera, eu a lembraria do modo mais doloroso que eu conseguiria.
Fiz uma deliciosa torta de frango com catupiry para minhas visitas queridas. A sobremesa, um maravilhoso creme de abacaxi. Vivian dissera que nunca esqueceria daquele jantar supremo. Eu ri comigo mesma. Não, ela nunca esqueceria. Levei Vivian e sua família para conhecer a casa. Levei-os até o meu quarto e lá os tranquei. Meu marido olhou para mim, exasperado, e tentou a todo custo pegar as chaves do quarto de mim. Mas eu colocara algo especial na bebida dele, de modo que logo ele caiu no sono eterno. Aliás, fazia parte da minha estratégia eliminar os maridos primeiros, pois eles poderiam me deter com sua força natural. Logo, quando voltei ao quarto, o marido de Vivian também encontrava-se morto.
Vivian olhou para meus olhos, implorando por perdão e misericórdia. Ela teve alguma misericórdia minha? Resposta negativa. Retribui aquele olhar desesperado, e me senti o ser mais poderoso que já habitou esta terra. Eu reduziria aquela família a poeira, do mesmo jeito que ela havia feito com minha infância. Eu queria a minha inocência de volta, e eu a teria.
Queimei um pouco a pele do mais velho. Depois atirei nele, para que parasse de gemer feito como uma menininha. A menina do meio era muito mais valente, e tentou tirar a arma da minha mão. Mas não conseguiu, e novamente eu usei a arma para calá-la. É necessário destacar que eu havia amarrado todos. A mais nova, eu queimei. Lentamente. O meu ódio caiu sobre ela, terrivelmente. Quando percebi que ela havia morrido, fiquei assustada com a minha própria monstruosidade. Vivian não mais gritava, e a cena mais aterrorizante que vi foi ela roubando a arma de minha mão e atirando em si mesma. Suas últimas palavras foram: "A menina destruiu a vida da mulher... irônico, não?"
Preparei então minha fuga. Levei o corpo de meu marido até o fatídico quarto, e a seu lado coloquei uma carta, na qual ele assumia toda a culpa pelo acontecido e depois teria se matado, com veneno. Eu iria até a polícia, em desespero. E fui. Cortei uma cebola, para que seu cheiro forte me levasse as lágrimas, despenteei meu cabelo e infligi-me algumas queimaduras, e corri ao encontro da polícia.
Mas eu fora traída. A menina mais nova levava consigo um inútil, desprezível, tolo e odiável coelho de pelúcia... Um daqueles que, quando você aperta sua barriga, ele grava uma mensagem, e ao apertá-lo novamente, ele repete a mensagem. O policial apertou a barriga daquele coelho infeliz uma única vez... O que foi o suficiente para me incriminar. Ria a vontade, eu fora denunciada por um coelho de pelúcia. Eu fui para a cadeira rindo, já me despedindo de qualquer sanidade.
Esta é a minha carta para o mundo. E o meu conselho, a minha prova de arrependimento, resume-se em uma única frase: Se você estiver cometendo um assassinato, livre-se do coelho.
 

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