domingo, 31 de maio de 2015

a vida na fronteira.

written by Larissa Rainey at 23:35 0 comentários.
oh mon amour, mon âme soeur
je compte les jours je compte les heures
je voudrais te dessiner dans un désert
le désert de mon coeur

good morning guys, how are you? "você é a teacher mais legal que eu já tive, não sei como você consegue, o seu trabalho é muito bom, finalmente alguém sabe outro escritor cultista sem ser o padre antonio, eu morro de rir com você" i'm not ok. eu devo ser a pior professora do mundo, eu não consigo. eu não sei trabalhar, eu sou muito atrapalhada eu não sou inteligente e eu não vou conseguir passar.  é melhor eu não abrir a boca, aliás era melhor eu nem continuar respirando

Sempe me disseram que o mundo "lá fora" é cruel e impiedoso. E, de fato, é. Mas nenhum mundo é mais impiedoso que o meu. Ninguém cobra tanto de mim quanto eu me cobro. Se eu chego dez minutos atrasada no trabalho por conta de um acidente de trânsito, só falta eu morrer de chorar na frente da coordenadora e dos alunos.
Eu não sei quem enfiou na minha cabeça que eu preciso estar sempre no topo do meu jogo, que eu preciso estar bem sempre, que eu preciso ser a mais inteligente. Na verdade, acho que isso foi uma resposta ao tanto que me zoavam na escola pela minha aparência. Eu não era a amiga bonita, eu era a amiga inteligente. Eu não tinha namoradinhos, eu tinha notas boas. Não que ser bonita e ter namorados é algo ruim, mas eu sempre vi meu valor pelo meu desempenho acadêmico já que eu era a "amiga feia". Eu poderia discorrer aqui sobre como colocam garotas para baixo desde sempre e colocam nosso valor na aparência física  e como a nossa autoimagem na infância fode a nossa vida adulta mas o texto não é sobre isso.
Só que ninguém me disse nessa época que eu não seria boa em tudo. Eu seria péssima em algumas coisas e isso não importa. Ou seja: quando eu comecei a ir mal na escola (talvez o início de uma depressão? momentos) foi o declínio da confiança no meu intelecto.
Eu enfiei na minha cabeça que eu não era nem a amiga bonita e nem a amiga inteligente. E nem amiga de ninguém, já que eu sempre tive aquele dom de me irritar por qualquer coisa e criar furacões em copo d'água (porque tempestade é pouco). Aí você junta com gente rindo de você na escola, seus pais mudando radicalmente com você, a puberdade acontecendo, a depressão pedindo pra te ser sua amiga no Facebook...

Eram 20:45 de um domingo, em maio de 2015. Olho para a parede e penso: "eu sempre fui burra mas ninguém teve a decência de me contar". Faço questão de assassinar mais uma das minhas unhas e arranhar o meu braço onde ele já está machucado. Vou pro banheiro, me olho no espelho, vejo o meu corpo (que está bem), tomo um banho rápido pra evitar (maiores) problemas de autoimagem. Deito na cama, me enrolo em dois cobertores e penso alto: caralho. Não é à toa que tem gente que pensa que eu tenho 14 anos. Na maior parte do tempo eu reajo do mesmo jeito de quanto eu realmente tinha 14 anos.

Tá com problemas de autoestima? Foge. Tá com medo de estudar e não passar no vestibular? Não estuda, não vai pro cursinho, foge. Tá com medo de conseguir aquele emprego foda e ser ruim nele? Nem vai pra entrevista, foge. Tá com medo de gostar de alguém? Run, Lori, RUN. Algo deu errado? Não, não é a coisa que deu errado, é você que tá errada. Você é a burra, e não o sistema de educação que é elitista. Não é o emprego que não é para o seu perfil e sim você que é burra. É sempre o mesmo ciclo de feia-burra-incapaz-inútil. Engraçado que eu sempre falo pros meus alunos que não é pra ter medo de errar, tem que tentar falar o inglês o máximo possível e ir aprendendo a cada erro. Mas nossa, ai de mim quando eu travo a língua. Claramente eu sou a estúpida. Duh.

Eu conto nos dedos os dias que eu realmente gosto de mim mesma e penso "nossa, vale a pena eu viver". Não digo isso pra chover gente falando "mas looori vc é x e x x". Estou sendo brutalmente honesta aqui. Daí eu me questiono: é justo? Não. Estou sendo legal comigo mesma? Não. Eu pensaria isso de outra pessoa? Não. Eu tento julgar as pessoas o mínimo possível - eu sou humana, humanos não prestam etc. Na maioria das vezes eu não ligo pra certas coisas que outras pessoas ligam. Não, sério, você aí que me conhece numa esfera mais pessoal, eu quero que você diga quantas vezes você ouviu um barraco envolvendo meu nome. Eu não entro em barraco porque na maioria dos tempos eu simplesmente não ligo. Vejo os defeitos das pessoas, dou um longo suspiro e deixo quieto.

Mas eu não sou bondosa com os meus defeitos. Faz tempo que não vejo meus amigos - simplesmente porque sair de casa não está fácil pra mim - e isso já o suficiente pra eu achar que sou uma péssima amiga, que logo todo mundo vai me abandonar ou que já estão abandonando... Sendo que eu sei meus motivos para não sair, eu estou tentando dar tempo ao tempo e ninguém está me abandonando, eu que estou me excluindo.

Só que ninguém sabe que eu vivo na fronteira.

Eu sou extremamente racional. Eu consigo te dizer perfeitamente quais são os meus problemas, qual é a minha trajetória com doenças mentais, porque as pessoas da minha família agem do jeito que agem, porque o céu é azul, porque eu devo me afastar de fulano... só que eu também sou extremamente reativa. Eu choro, eu grito, eu me arranho, me deixe longe dos remédios, eu quebro coisas, eu destruo o que tiver pela frente. É tudo imediato - e o que me dá mais medo é a minha facilidade de ir pra esses extremos. Só hoje eu oscilei entre urso hibernando, possuída pelo ritmo ragatanga, mini crise depressiva, Magali (a.k.a comi loucamente) e... sei lá como eu estou agora. Exausta?

Na verdade eu to escrevendo isso tudo pra relembrar uma coisa que li esses dias:

A depressão mente. A sociedade mente. O lado ruim da fronteira mente também. E eu minto pra mim mesma. Não tem problema eu ser ruim em mil coisas. Eu sou boa em algumas outras. Se eu não tenho o corpo que os outros querem, se eu sou feia e desengonçada, não é obrigação minha ser bonita. E, por fim:

eu preciso começar a ser legal comigo mesma como eu sou igual com os outros. tá na hora de sair do "é complicado" e entrar num relacionamento sério comigo.

me tirem do facebook POR FAVOR










segunda-feira, 20 de abril de 2015

oui

written by Larissa Rainey at 00:32 0 comentários.
foto de Ralph Gibson.


a primeira palavra que aprendi a falar foi "não".
não é exagero, muito menos invenção
desde sempre eu nasci para a negação
não, mãe isso não. eu não quero isso. não, não, não
um mundo desprovido de afirmação
oportunidades perdidas a milhão
ninguém entra no meu coração
"você é uma aberração"
entretanto, ninguém entende que isso é só proteção
estabilidade requer conservação
eu não tenho tempo para cuidar de mais uma decepção
o mundo está aí e eu quero a minha revolução
então para você, um não. para ele, um não. para ela, um não
eu só quero me poupar de uma tempestade de irritação.
eu não sei falar "sim"
nem se eu estiver muito a fim
nem se você escrever que me ama com nanquim
ainda não entendi porque sou assim
mas toda revolução precisa de um estopim
e um dia, sem mais nem menos, sem tempo ruim
eu direi sim.

sábado, 4 de abril de 2015

I had to reinvent.

written by Larissa Rainey at 20:51 0 comentários.
"Quando Ofélia aparece no palco durante o Quarto Ato, cena 5, cantando pequenas músicas e entregando flores imaginárias, ela perturba temporariamente toda a dinâmica do poder da corte de Elsinore.  Quando eu visualizo essa cena, eu sempre imagino Getrude, Claúdio, Laerte e Horácio compartilhando um olhar atordoado, pensando a mesma coisa: "Nós ferramos tudo. Nós ferramos muito tudo." Esse pode ser o único momento de auto-consciência da peça inteira. Nem o crítico mais nojento, tão velho quanto um dinossauro, tenta fingir que Ofélia está fazendo tempestade num copo d'água. A sua loucura e morte é, claramente, o resultado direto da tirania e negligência dos homens de sua vida. Ela é a prova que garotas adolescentes não perdem a cabeça por diversão. Elas chegam a esse ponto por conta das pessoas em suas vidas que deveriam saber agir melhor. Eu acho que Shakespeare entendia isso melhor do que a maioria das pessoas, hoje em dia." - tradução preguiçosa de The Unified Theory of Ophelia: On Women, Writing and Mental Illness.


Eu morri no dia 22 de outubro de 2014. Uma parte de mim estava tão desesperada e sobrecarregada que parou de viver. Numa última explosão, consumiu o que viu pela frente sem medir as consequências. Pro inferno com as consequências. Eu tinha uma música da Tori Amos que não parava de tocar na minha cabeça. Era um mantra do céu e do inferno, me levando a desesperos que eu já conhecia bem.

These precious things, let them bleed, let them wash away
These precious things, let them break their hold over me

Eu morri de calor. E então eu morri de frio. Num momento eu enxergava tudo e no outro tudo era confuso e atrapalhado. Uma coisa trêmula e chorosa... e ela morreu.

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Uma vez eu li que às vezes, precisamos matar certas partes de nós mesmos para prosseguir com a vida. Eu lembro dessa frase todo. santo. dia. Eu realmente acredito nisso porque sou prova viva. Toda vez que eu me olho no espelho eu penso nisso.
A parte que morreu tinha medo. Muito medo. A parte que morreu transbordava raiva, pessimismo. Era um tsunami no olho do furacão que ficava em cima de um vulcão. Anos e anos ouvindo que não era boa o suficiente, que não era adequada, que tinha nascido com a única intenção de infernizar, que já passou pelo inferno sem precisar sair de casa e ir conhecer o mundo. 
O que você faz quando parte de você morre, mas ainda existem outras vivas por aí?
Simples. Você rega toda as partes que sobreviveram até que elas se tornem fortes o suficiente. Nossa força não está na hora que fraquejamos e jogamos tudo para o alto, e sim em como lidamos para nos reerguer.
Eu escolho as minhas batalhas. Eu prefiro, por exemplo, me frustrar com 11 exercícios de física que eu não consigo fazer do que ficar magoada porque certas pessoas não assumem a responsabilidade pelas suas falas. Eu prefiro ficar frustrada com uma matéria que eu posso entender algum dia e vai me dar algum retorno (como entrar numa federal em Psicologia) do que lidar com gente adulta que não coloca a mão na consciência.
Eu tenho falhas. Várias. Mas eu tento melhorar, eu seguro meus ataques de raiva, eu não desconto meus humores nos outros. Agora, se você não consegue... o probleminha é inteiro seu. Se você ainda se projeta em mim, se você ainda acha que eu sou uma extensão sua... o probleminha é inteiro seu. Se você precisa olhar na minha cara e dizer que tem pena de mim, que seria melhor eu ir pros Estados Unidos limpar privada... adivinha de quem é o problema?
A parte de mim que acreditava nas suas mentiras morreu no dia 22 de outubro do ano passado. Eu cresci e eu me tornei algo maior que mim mesma. 


Sabe de quem eu tenho medo? Dos meus impulsos autodestrutivos. Pronto. Acabou. Não aturo mais porra nenhuma de ninguém. Mesmo que eu fique em silêncio e você ache que ganhou a discussão... eu só não quero gastar minhas palavras com você. Porque não vale a pena. Nunca valeu e eu não tenho tempo a perder. Eu não vou me encolher nem ficar enfurnada na cama sendo que eu poderia estar estudando pra garantir minha vaga na minha segunda faculdade enquanto você... tá aí, né. 


Eu assumo responsabilidade pelos meus atos e sei que fui errada com muitas pessoas. E eu tenho vergonha de pedir desculpas, e sou errada nisso também (o que é contraditório, vamos combinar). Mas existem mil coisas boas em mim mesmo que eu não enxergue. Então foda-se o que as pessoas acham de mim. Não quero mais maximizar meus erros e esquecer do que eu já fiz de bom nessa vida. Eu sou resiliente. Eu sou criativa e consigo me virar, mesmo quando estou na merda. Tem sempre aquela frestinha de luz no meio da escuridão e é pra lá que eu vou. E no final das contas....


eu sei que numa realidade alternativa eu sou esse menino. Nicki Minaj tem poder, minha gente.











sábado, 28 de fevereiro de 2015

c'est ne pas facile.

written by Larissa Rainey at 00:01 0 comentários.
Eu tinha combinado comigo mesma que esse blog seria mais animado, com temas mais amenos, pra compensar o quanto eu mergulho nos posts do Falando Sobre Saúde Mental. Mas veja bem... 

Eu não sei ser animada quando eu tô pra baixo. Já fingi muito nessa vida, e não consigo mais não. Posso até me acalmar, não deixar tão explícito assim. Mas fica estampado na minha cara, no meu olhar, no meu tom de voz. Também não sei sofrer calada. Escondo certas partes do meu sofrimento porque não quero todo mundo acessando tudo -  preciso do meu espaço - mas se eu fico mal, você vai ficar sabendo. Eu tenho essa tendência e acho que isso se deve ao fato de eu escrever. Só consigo lidar com as coisas se eu desabafar, se eu escrever. Se eu deixar tudo entalado, eu vou explodir - e não vai ser nem um pouco bonito.

No começo do mês, eu comecei (oi) a fazer um diário. Inclusive acabei de lembrar que esqueci de escrever ontem e hoje.  O objetivo é organizar as minhas mudanças de humor. Isso começou quando minha psicóloga disse que cada semana eu estava de um jeito muito diferente - ou seja, instável pra caralho. Como eu tenho a cabeça muito grudada na minha bunda, às vezes eu não paro pra pensar em como isso é percebido pelas pessoas ao meu redor. Eu não sei como é conviver comigo sem ser eu mesma. Eu, que tento ter tanta empatia, não consigo imaginar como é ser meu amigo. Não entendo como é pra alguém tentar conviver comigo - ainda mais diariamente. Porque pela internet é uma coisa. Diariamente é outra. Nem sempre dá pra traduzir tudo do mundo virtual pro real. Conversando com o pessoal pela internet, eu só digito um monte de coisa. Na vida real, eu quebro o que estiver pela frente num dia muito ruim. 

Com menos de um mês de diário, eu fico assustada em como eu sou instável. Em um determinado dia, eu fui de completamente miserável pra feliz e orgulhosa de mim mesma. "Ah, mas todo mundo passa por isso". Eu não tô falando de mudanças leves de humor. Eu estou falando de "meu deus, eu nunca mais quero sair da cama" pra "meu deus, que dia lindo, eu sou foda, eu sou maravilhosa!". São mudanças muito intensas e que me deixam exausta.

O texto nem era pra ser sobre isso e cá estou eu escrevendo parágrafos enormes... ugh. 

Eu também tenho uma intuição do caralho. Não sei de onde sai isso, não sei qual a explicação científica psicológica biológica pra isso, mas existe. Eu simplesmente sei de certas coisas antes do negócio acontecer. Tem gente que fala que isso é resultado de tudo o que eu concluo com as minhas observações... Mas sei lá. Não tô falando que eu sou vidente, mas daquele sentimento do fundo do meu coração de que vai dar merda ou vai dar certo.

Se eu não vou com a cara de alguém, eu fico com um pé atrás e nem sempre dou espaço pra pessoa entrar. 99,9% das vezes que isso aconteceu, a pessoa me provou por a + b que ela realmente não era confiável. Se eu entro num lugar e começo a me sentir estranha, eu tento ir embora o mais rápido possível. E muitas vezes, descubro que o rolê continuou e deu alguma merda depois. Ou então olho pra alguém e já sei que vai dar certo - e a pessoa me faz um bem danado. No meu atual emprego, eu sabia que tinha conseguido só de conversar por uns dois minutos com minha coordenadora. Algo nela me dizia que a vaga era minha. Lógico que tem vezes que eu caio de cara no chão e erro. Mas eu sei que eu preciso seguir a minha intuição.

Sexta passada, dia 20, fui visitar meu avô. Ele andava com a pressão bastante alta, chegou a ir no hospital algumas vezes... Mas nessa quarta, ele teve o segundo infarto. No momento, ele está na UTI. Talvez amanhã ele vá para a enfermaria, mas vai continuar no hospital por sei lá quanto tempo. Ele precisa fazer (outro) cateterismo, mas o problema é que o contraste pode piorar bastante os rins dele, que já não estão lá grande coisa. Tanto que era pra ele ter feito isso uns meses atrás, mas o cardiologista preferiu não fazer por conta do risco. Agora, não tem jeito. É tentar tratar os rins e proteger pra não dar merda.

Eu não sei explicar o aperto que me dá quando penso no meu vô doente, quando imagino ele sofrendo. Ele sempre foi extremamente carinhoso comigo, uma das únicas pessoas da família que nunca me magoou. Eu sou a única neta dele, e eu fui mimada. Assumo. Não só de presente, mas de carinho. De atenção. Pra vocês terem noção, ele me chama até hoje de "Pérola". (pausa pra abastecer a cantareira com lágrimas). Minhas melhores memórias da infância foram ao lado dele. Engraçado pensar que quando eu tinha uns 10 anos, eu brincava de professora de inglês com ele na lousa que ele comprou pra mim. E eu realmente virei professora de inglês, e amo o que faço.

Hoje fui visitá-lo, e mesmo na cama ele me deu um abraço forte. E eu tenho medo, assumo. Medo do que pode acontecer. O corpo humano é uma caixinha de surpresas. Óbvio que tenho esperanças que vai dar tudo certo, que logo logo ele tá no sofá de casa assistindo leilão de boi Nelore... Mas lembra o que eu disse sobre a minha intuição?

De qualquer jeito, eu não consigo parar de pensar no meu avô. Ele está lá, sozinho, cercado de gente doente, sem comer direito, sem poder se distrair - e só meia hora de visita é tão pouco... O que me conforta é saber que pelo menos tem gente capaz cuidando dele, coisa que nem eu nem minha mãe e minha avó poderíamos fazer. 

Aliás, isso é o que mais machuca: ser impotente. Eu posso rezar, eu posso mandar energias boas... Mas nada disso garante o resultado que eu quero. O que tiver que acontecer - bom ou ruim - vai acontecer. Só me resta lidar com isso... e ser forte. Preciso ser forte pela minha mãe e principalmente pela minha avó - a mais baqueada pela internação do meu avô. Ela tem 78 anos, logo vai precisar fazer cirurgia das cataratas, tem as próprias limitações... E o emocional dela é muito, mas muito frágil. Preciso ser forte pela minha mãe porque ela simplesmente não sabe lidar com a maioria das coisas que acontecem. Ela segue em frente, ela vai e vai, mas ela não consegue entender e de fato crescer. 

Isso me deixa terrivelmente sozinha. Eu preciso ser forte pela minha mãe, pelo meu avô, pela minha avó, pelo meu pai... 

E quem vai ser forte por mim? Eu não aguento tudo isso não.


life is a movie, and there'll never be a sequel. and i'm cool with that, as long as i'm peaceful...



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Minhas 20 personagens favoritas de séries de TV

written by Larissa Rainey at 00:37 0 comentários.

Bom, acredito que quem me conhece sabe que eu sou a pessoa por trás do Falando Sobre Saúde Mental, que ele mudou minha vida, blablabla. Eu amo escrever e pesquisar pra postar lá, mas chega uma hora que cansa falar sobre depressão morte suicídio violência etc etc etc. Olhar uma notícia de "morte e suicídio na conchinchina" e pensar "putz, isso dá pauta pro blog" começou a me deprimir. Então, cá estou, tentando dar um gás pra esse blog tão negligenciado. 
Eu já tinha essa ideia de post faz tempo, mas como eu sou a pior blogayra do mundo, nunca escrevo. Mas cá estou eu, sendo minimamente produtiva.
Desde o ano passado, tenho assistido mais séries de TV do que filmes. De repente eu não estou conseguindo mais ficar presa por uma hora e meia (porém conseguindo fazer maratonas que duram quase o dia todo). Então, taí: uma listinha com as minhas personagens femininas favoritas de séries de TV. Como eu não consigo escolher qual é a minha favorita de todos os tempos, decidi separar por série e em ordem alfabética. Parece justo.
ATENÇÃO: conterá spoilers. 

sábado, 7 de fevereiro de 2015

10 músicas para sambar na cara da sociedade

written by Larissa Rainey at 00:30 2 comentários.

Daí que eu estou no grupo do Rotaroots a um bom tempo já, mas como dá pra perceber, nunca fiz parte das blogagens coletivas nem dos memes, tags... Isso muda HOJE, e com um tema que eu amo: sambar na cara da sociedade. Eu que adoro uma listinha, decidi colocar aqui as 10 músicas que eu mais escuto na hora de me transformar em passista facial.

Na verdade, eu tenho uma playlist no Spotify chamada The Fierceness Within que tem mais de 300 músicas... e o tema é justamente esse: ser fierce, ser forte, superar as coisas. Escolher só dez vai ser meio difícil, mas vamos lá. 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Causos de Infância

written by Larissa Rainey at 14:39 1 comentários.

Eu fui uma criancinha esquisita. Daí começaram a falar sobre infância no Twitter e eu decidi compartilhar com vocês algumas coisas porque sim. Dá pra entender muito sobre mim analisando a coisinha que eu era quando criança.

  1. Eu sempre fui MUITO afobada, desde pequena. Logo nos primeiros anos da escola, a gente tinha um exercício que precisávamos olhar para todos os cilindros numa página e pintar qual era maior. Como eu era apressada, eu não olhava a página inteira - só a primeira fileira. Ou seja: eu errava TODOS os exercícios assim.
  2. A gente tinha um livro do Castelo Rá-Tim-Bum com várias atividades artísticas. Uma delas era recortar e colar um quebra-cabeça. Eu simplesmente fui cortando tudo sem critério algum. Cortei tudo errado, colei tudo errado. Minha mãe, que sempre foi muito caprichosa, ficou horrorizada com aquilo e tentou consertar... o que não funcionou. O negócio ficou ó, uma bosta.
  3. Eu também sou teimosa desde pequena. Uma vez eu tinha que fazer um exercício pra escrever as partes do corpo da vaca. Eu não queria colocar "tetas" porque achava uma palavra feia. Ao invés disso, escrevi "seios". Minha mãe falou "mas filha, vaca tem teta mesmo". Não adiantou - entreguei o exercício falando que vacas tinham seios pra professora. 
  4. Nos boletins de escola - pelo menos no Jardim II e III - não colocavam notas, e sim meio que o progresso da criança. Em todo boletim, todo bimestre, colocavam que eu tropeçava e caía muito e não tinha noção de espaço. Todo. Santo. Boletim.
  5. Por ser ruiva, muita gente (leia-se adultos) mexia comigo. Daí uma mulher perguntou se meu cabelo "era dessa cor mesmo". Minha mãe conta que eu botei as mãos na cintura e falei "escuta aqui, você acha que uma menina DA MINHA IDADE vai pintar o cabelo"? Detalhe: eu tinha uns quatro ou cinco anos.
  6. Quando eu tinha uns oito anos, eu passei a odiar meu cabelo. Daí eu decidi que uma boa maneira de arrumar isso seria cortando de maneira errada. Eu fazia umas falhas modestas e que davam pra esconder fácil e ainda jogava as mechas atrás da escrivaninha pra minha mãe não ver.
  7. Aliás, eu amava uma tesourinha. Quando eu era beem pequena, minha mãe de algum jeito me deixou sozinha no quarto da casa da minha vó, depois de ter comprado algumas roupas. Ela voltou pro quarto e me encontrou com uma tesoura na mão e todas as roupas picotadas.
  8. Eu tinha um ferrinho de passar roupa e usei a ponta dele pra fazer minifuros em todas as partes do meu armário que eu alcançava. 
  9. Eu já mastiguei um daqueles vidrinhos de amostra de perfume. Não sei como eu não morri.
  10. Eu amava chamar a atenção. Era crônico, até. Toda festa que eu ia, eu precisava arranjar um copo de plástico e dançar na boquinha da garrafa (ou algum equivalente do axé dos anos 90). Tanto que até hoje tem parente distante que só lembra de mim por causa desses acontecimentos infelizes que morro de vergonha atualmente.
  11. Meu sonho era me apresentar no programa do Raul Gil. Não no programa da Xuxa, nem do Gugu, nem do Faustão. Do Raul Gil.
  12. Dois dos meus programas favoritos de infância: o da Rosa e Rosinha e Siga Bem Caminhoneiro. Fica aí a dica.
  13. Uma vez, fui viajar com meu pai pra Blumenau e na época a Varig estava fazendo aniversário ou comemorando alguma coisa, sei lá o que. E a bandeja da comida, garfos e facaeram de plástico porém amarelos, meio dourados. Elogiei tanto a bandeja pra aeromoça, mas tanto, que ela me deu a bandeja, os talheres e várias outras coisas que eles tinham lá sobrando. Meu pai ficou bem feliz de ter que levar esse bando de coisa durante a viagem.
  14. Quando eu era pequena eu tinha muita curiosidade pra saber o que acontecia depois da morte, inclusive eu ficava matutando quando que eu ia morrer porque queria descobrir logo.
  15. Eu ficava perto da janela de casa pedindo pra Lua me dar poderes para eu ser que nem a Saior Moon.
Por hoje é só, pessoal. 

giving zero fucks since 1992.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

identidade.

written by Larissa Rainey at 01:34 0 comentários.

A vida é uma somatória de inconveniências. Quanto mais você vive, maiores elas serão. A cada ano as coisas ficam mais pesadas. Chega um certo momento que eu olho pra cima e me lembro que é preciso respirar. Mas a vida não para. Ela continua te atropelando, te jogando pra lá e pra cá. 
E a minha vida tem passado rápido demais. De repente eu tenho 22 anos, um diploma com pouca serventia. Continuo olhando pro teto sem saber o que fazer. 
E então, eu desassocio. Meu coração vai pra outro lado, qualquer lado, apenas me dê outro lado pra eu não me olhar por dentro. Me joga embaixo das cobertas pra eu não ver o que eu não quero ver. Eu quero uma história, qualquer história! Eu quero esquecer o meu nome, a minha história incompetente, minhas paranoias insistentes.
Eu troco um vício pelo outro, eu troco uma tristeza pela outra. Sempre fui boa em abandonar coisas. É assustador ficar no mesmo lugar, com as mesmas coisas. Entretanto, essa sou eu.
the girl who was stuck.
Presa dentro de mim mesma, sem identidade, sem saber porque eu sou do jeito que eu sou. Eu sei o que me move, mas não sei porque. Eu olho pro meu reflexo e tenho medo da pessoa que me olha de volta.
"is there more to you than just a pretty face?"
Não sei e não é você quem vai conseguir julgar isso.
"desse jeito ninguém vai querer te comer"
"i love a sexy redhead"
"você é tímida e boba"
Sempre naquele estranho espectro sexual e não-sexual onde todas as coisas se confundem. Será que eu sou humana ou só um punhado de cabelo?
"se eu fizesse uma lista com todas as coisas que eu mudaria em mim, passaria o resto da vida escrevendo."
"queen of no identity, i always feel like someone else. a living myth"
Electra Heart teria inveja de mim. Não precisei que ninguém partisse o meu coração... Sou a minha maior heartbreaker.
"the worst loneliness is to not be comfortable with yourself"
"engraçado como eu sempre tenho monstros ao meu redor.
será que isso significa que eu também sou um monstro?"
Sim. Não. Talvez. Depende do dia. Depende da situação. 
"i grew up in a lie"
ser 'bonita' e 'inteligente' nunca me levou a lugar nenhum.

eu estou presa em mim mesma e tenho medo de me libertar.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

É preciso que façamos alguma coisa.

written by Larissa Rainey at 14:52 0 comentários.
Atenção: este post falará de inúmeros tipos de violência, de forma gráfica.
 Preserve-se! Não leia o que pode te causar mal.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Para ouvir: Scott Bradlee & Postmodern Jukebox

written by Larissa Rainey at 13:31 0 comentários.

Que eu gosto de uns covers diferentões não é novidade pra ninguém... ou é? Enfim. Cheguei até a fazer um post com 10 covers que você deveria ouvir. Até que, um belo dia, eu conheci Scott Bradlee & Postmodern Jukebox.
O que diferencia eles de outros projetos parecidos é que eles não escolhem apenas uma década ou estilo para fazer as versões. Você pode escutar tanto a versão country de Anaconda quanto uma versão ótima pra sapatear (pun intended) de Wiggle - aquela múscia que pergunta o que você vai fazer com aquela bunda enorme, wiggle wiggle wiggle.
Cada música é um estilo diferente, com instrumentos diferentes e pessoas diferentes cantando/tocando/etc. Não tem como eu não ficar apaixonada! <3 Poucas bandas me conquistam assim logo de primeira.
Mas Larissa, o que você indica pra eu escutar deles?

Eu fiz uma playlist no Youtube com as versões que eu mais gosto. ATENÇÃO: tem versão do tema de Sailor Moon e das Meninas Super-Poderosas nessa playlist. SIM, eu disse versão vintage de Sailor Moon. Tem até de Pokémon, mas eu gostei mais de Sailor Moon. Ah é, tem versão de My Little Pony também. Eta povo inspirado <3



(P.S: se eu fosse vocês ficava bem de olho no cara que toca o tamborim. Ele não aparece em todos os vídeos, então preste atenção. Se você não ficar contagiado pela felicidade eu oficialmente desisto de todos vocês e vou me mudar pra uma ilha longínqua e vou levá-lo pra lá.)

Se você escutou, amou e quer escutar no Spotify, eu fiz outra playlist. Não tem as mesmas músicas do Youtube, mas tem dos três álbuns que eles lançaram.



Se você tem um dinheirinho extra no banco, amou os caras e quer apoiar, você pode comprar os álbuns no iTunes e no Bandcamp :)

Mais links úteis:

Facebook
Twitter
Instagram

Espero que tenham gostado! Tô pra fazer esse post desde que descobri os caras... sou a pior blogueira do mundo ou sou a pior blogueira do mundo?

(Não respondam.)

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Oi, tudo bom?

written by Larissa Rainey at 22:51 0 comentários.
A mudança é a matéria dos sonhos.
Sem a vontade de mudar,
ficamos parados em nós mesmos.
Sem a vontade de mudar,
sem a curiosidade de olhar para o lado,
as sensações se tornam estáticas.
Só vivo porque quero mudar.
Luto porque quero mudar,
porque não me contento com pouco.
Digo adeus ao meu eu de hoje,
porque amanhã já serei um pouco diferente.
Sigo assim, de mudança em mudança,
com a bagagem na mão
e um sonho no coração.

Agora vai. Finalmente fiz as mudanças que tanto queria no meu blog. Um quase recomeço. Sem apagar tudo o que construí desde 2010, mas com um bom pontapé para o futuro. Não tem mais janela secreta. As coisas estão mais escancaradas. Estou dando a cara a tapa, por isso o blog agora tem só o meu nome. 
Minha vida mudou bastante desde o último post - que foi justamente o anúncio da minha coletânea de crônicas. Nesse meio tempo eu criei o Falando Sobre Saúde Mental, um blog dedicado a... falar.... sobre.... saúde mental (duh). O título é bem autoexplicativo e ele mudou a minha vida de uma maneira que eu jamais imaginava. 
Nesse ano eu me despedi da publicidade e estou abraçando um possível futuro na Psicologia - mas primeiro eu preciso passar no vestibular ano que vem. Enquanto isso, acabei me descobrindo como professora - e estou amando ensinar.
Descobri que se eu não puder ajudar as pessoas, minha vida não tem muito sentido. Eu não consigo ainda explicar como eu me sinto quando alguém diz que eu os ajudei. Eu sinto que é pra isso que eu estou aqui, pra usar o que eu posso oferecer para acalentar alguém. É como se fosse essa a razão de eu já ter sofrido tanto - pra entender o que é o sofrimento e poder ajudar quem também sofre. 
Apesar de algumas coisas bem tensas terem acontecido, eu estou me sentindo incrivelmente bem. Estou em paz comigo mesma. Eu e minha família estamos nos resolvendo, nos reconhecendo. Pela primeira vez em 22 anos eu me sinto segura e confortável em casa, comigo mesma, e com o meu caminho.
Por isso que não faz mais sentido ter janelas secretas. Prefiro as que são escancaradas e que deixam o sol iluminar a casa inteira.



Living La Dolce Vita, life couldn't get much sweeter...

terça-feira, 10 de junho de 2014

LANÇAMENTO - Nada Disso Aconteceu de Verdade

written by Larissa Rainey at 23:59 1 comentários.

Eu vou fingir que eu não estou passando mal neste exato momento. Ok, Larissa, vamos lá!
Como eu anunciei  na página do Inside the Secret Window, a coletânea Nada Disso Aconteceu de Verdade já está à venda!!! Eu fiz uma coisa e terminei!!!!!!! 


Ok, explicando sobre a coletânea: ano passado eu escrevi muitas crônicas. Na verdade, eu tirei alguns textos do baú, escolhi os melhores, escrevi vários textos novos - inclusive terminei uma crônica que comecei em 2012 rs, e pronto! Cá está essa coletânea. 
Sim, é bastante pessoal - como tudo o que eu escrevo. É cheia de altos e baixos, entre momentos brilhantes de glória e felicidade até os momentos que eu preferia que não tivessem acontecido. Eu estou numa fase de mudanças, numa fase de buscar uma certa estabilidade. Preciso olhar para trás e lembrar das coisas que não quero mais que aconteçam. E decidi compartilhar isso com vocês :)
Eu espero, do fundo do meu coração, que vocês gostem. Espero que alguma coisa ali traga algo de bom para vocês, mesmo que a maioria dos textos sejam tristes. 
Sabe o que isso também significa? Que está na hora de continuar The Wandering Children ;) Mas calma, vamos sem pressa...





segunda-feira, 5 de maio de 2014

Brasil, um país hospitaleiro

written by Larissa Rainey at 22:06 1 comentários.
Sempre que algum amigo ou parente estava para visitar ou morar em outro país, eu ouvia a seguinte frase: "Só o Brasil recebe bem as pessoas. Povo nos Estados Unidos e Europa é tudo frio e não estão nem aí."
Nunca gostei e concordei com essa frase. E cada vez concordo menos com ela.
Muito se fala da cordialidade do brasileiro. Somos hospitaleiros, animados, de bem com a vida, sempre de alto astral... mas calma. Peraí. Acredito que pra sermos realmente cordiais, nos falta muito ainda. 
Onde está a cordialidade do brasileiro ao linchar uma mulher até a morte por conta de um boato no Facebook?
Onde está a cordialidade do brasileiro ao respeitar as próprias conterrâneas na rua?
Onde se encontra o carinho, o respeito e a hospitalidade dos estudantes de uma faculdade privada para com uma aluna negra, feminista e bolsista? 
Inúmeros casos, inúmeros desrespeitos e preconceitos. 
Mas o Brasil tem mulheres lindas... as mulheres brasileiras que nunca são respeitadas, nem dentro de casa e nem fora, nem quando denunciam seus casos de estupro.


Fica uma pergunta na minha cabeça: o Brasil é hospitaleiro para quem?
Pra quem é homem, cis, branco, hétero, cristão, de classe média/alta? 
Então não somos hospitaleiros merda nenhuma.

sábado, 8 de março de 2014

Mais um dia

written by Larissa Rainey at 01:12 2 comentários.

obg Malu <3

Uma flor, um bombom, um estereótipo reforçado pela milésima vez. Uma hipocrisia vestida de homenagem. Um reverenciamento do arquétipo inatingível. É o que nos oferecem a cada oito de março.
Depois de recebida a flor, o bombom, o cartãozinho, nos sobram as dificuldades diárias. Mensais. Anuais. Muito cara a taxa de anuidade que se paga por ser mulher - e não dá para cancelar o cartão assim, de uma hora pra outra.
Que levante a mão a mulher que anda tranquila pelas ruas de sua cidade à noite. Que levante a mão aquela que não tem uma história de assédio nas ruas. Que levante a mão aquela que nunca se sentiu intimidada por algum homem: seja o pai, o irmão, o avô, o amigo, o namorado, o chefe. Para ser sincera, não espero mãos levantadas ao fim deste parágrafo.
Ser mulher é ouvir uma série de alarmes, desde a mais tenra idade. Crescemos ouvindo que existe um padrão e ele deve ser obedecido. Precisamos escolher entre vários tons de rosa, bonecas que muitas vezes não nos representam, precisamos ser silenciadas, caladas, porque "menina é mais quietinha". Temos que ser dóceis, afáveis, meigas. Aguentar tudo sempre com um sorriso no rosto. Acham que somos vasos decorativos, encostados numa prateleira inalcançável. Uma flor para um vaso. Entende?
Dizem que mulheres são indecifráveis. Que o nosso não é um sim, que não nos expressamos de acordo com o que pensamos. Nossas negações são o estopim de uma longa discussão, em que tentam nos convencer a fazer o que nem sempre queremos. Muitas vezes, nos vencem pelo cansaço. 
"Mas por que não? Me diz, eu quero saber. Conta, vai. Mas por que não? Vai ser bom. A gente se dá tão bem! Eu sei que você quer."
A cada século se criam homens que não respeitam mulheres. Não respeitam nosso espaço físico nem mental. Precisamos lutar para conseguir escolher representantes políticos. Precisamos insistir por salários melhores e iguais aos dos colegas homens. Não podemos exercer nossa liberdade de vestir o que queremos por medo do que pode nos acontecer. Não podemos andar na rua à noite sem ter medo de qualquer pessoa que passe perto de nós. Não podemos ir ao trabalho às oito da manhã sem sermos assediadas na rua. 
Mulheres morrem nas mãos de seus  maridos, namorados, amantes. Mulheres apanham desses companheiros, vivem com medo, sem dinheiro para ir embora de casa. Mulheres morrem fazendo abortos ilegais porque não nos dão o direito de fazer esse procedimento de maneira segura. Mulheres morrem no parto, em condições precárias. Mulheres são estupradas, abusadas física e psicologicamente. E ainda sim, colocam a culpa em nós. Se apanham do namorado, é porque aprontaram. Não consegue sair de um relacionamento abusivo? É trouxa, idiota, apanha porque quer. Morreu fazendo aborto? Bem feito! Morreu no parto? Bem feito! Abre as pernas, é isso que você ganha. Foi estuprada? A culpa é das suas roupas, do seu comportamento, dos lugares que você frequenta. 
O sistema monetiza nossos corpos e nos culpa quando o pior acontece. Nos bombardeiam com imagens falsas de perfeição e quando mulheres morrem ao tentar atingi-los, nos culpam. Nos oferecem salários menores e se  não podemos ser financeiramente independentes de nossos parceiros, nos culpam também. Homens não usam camisinha, e se a minha pílula falhar, a culpa vai ser minha. 
Se eu me visto de maneira a não deixar nada mostrar, sou pudica e pouco atraente. Se me visto com roupas que revelem meu corpo, sou puta e mereço ser humilhada.
Colocam em nossas cabeças que nossa aparência deve agradar aos homens - e se seguimos a cartilha, nos categorizam como fúteis e inúteis. Gostar de maquiagem é ridículo, queremos um look mais natural, menos falso... nossa, você não usa maquiagem? Que absurdo! Por isso fica feia desse jeito! 
Se a vizinha faz sexo e grava, o mundo inteiro fica sabendo. Porque o namorado idiota vazou o vídeo, e ninguém culpa o namorado idiota. Somos nós, mulheres, as expostas. Somos nós,  mulheres, que vamos para a fogueira pública. Porque fizemos sexo, porque registramos esse fato, como se sexo fosse a coisa mais alienígena do mundo. Vende-se tanto o sexo, promove-se tanto o sexo, por que vídeos assim ainda causam tanta comoção? Você lembra o nome do cara que vazou o vídeo da Paris Hilton? Provavelmente não - eu mesma não lembro - mas todo mundo sabe que ela tem uma sextape. Colocam um cone da vergonha em nossas atividades sexuais, até que sair na rua se torne impraticável. Nossa intimidade é exposta e mais uma vez a culpa é sempre nossa.
E você nos dá uma flor, um bombom, um cartão cor-de-rosa e acha que está nos homenageando. 
Não queremos homenagem por ter que suportar todas as merdas que enfrentamos.
Não queremos uma flor para fingir que tudo está bem.
O que é uma flor quando se está no tiroteio todo dia?
Eu quero respeito. Quero pegar um ônibus e me sentar ao lado de um estranho com a certeza de que ele não vai abrir as calças do meu lado. Quero voltar do trabalho à noite sem me assustar com cada sombra. Quero que minhas amigas sejam respeitadas em suas diversas maneiras de ser, quero que as mulheres negras não sofram a horrível combinação do machismo com racismo, que não tenhamos medo de explorar nossa sexualidade em  suas diversas formas, que as  pessoas sejam respeitadas de acordo com suas identidades de gênero, que a mulher pobre consiga um trabalho digno para se separar do marido abusivo. Quero que os garotos saibam que as garotas NÃO SÃO SUAS PROPRIEDADES, que a família não ache fofo que seu filho beija uma menina da sua sala à força, quero que parem de ensinar aos meninos que se ele gosta de uma menina deve diminuí-la, persegui-la. Quero que entendam que o meu NÃO significa NÃO, e ele não tem que ser discutido se estamos falando do MEU corpo. Quero saber que pessoas trans* tenham oportunidades dignas na vida, sem serem humilhadas, ridicularizadas, violentadas. Quero que parem de ensinar às meninas que elas precisam ser agradáveis aos olhos dos homens, que o casamento é a única maneira de ser feliz. Quero que minha filha possa experimentar com o próprio visual sem represálias da sociedade, sem ditar o que é "de menino e de menina". Quero que meu filho possa brincar de boneca e exercitar sua imaginação sem se sentir pressionado. Quero usar a roupa que me deixa segura e confiante, sem medo de reações violentas. Quero que minhas amigas não se sintam invadidas nem desrespeitadas por estranhos em lugares públicos, quero que elas não sofram com ciúmes e possessividade.
Se você não pode me dar isso, não precisa me dar flores. Se eu quiser decorar meu quarto, pode deixar que eu mesma as comprarei.


{Espero que tenham gostado do layout novo do blog.  Hehe.}

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Top 10 - Músicas Natalinas

written by Larissa Rainey at 21:52 0 comentários.
Em 2011 eu escrevi aquele que seria um dos marcos deste blog: o Top 10 - Momentos Natalinos Deselegantes. Mas dois anos depois, achei que estava na hora de dar uma atualizada no tema. Aí você pensa, "porra, Larissa? Música Natalina? Sério que você vai fazer uma merda dessas?"
Minha resposta é: cala a boca e vem comigo.

Eu só queria um motivo pra postar essa foto.



Eu gosto do clima de derrota dessa música. O cachorro não está nem aí pro Natal, ele só quer saber de deitar perto da lareira e ficar de boa. Inclusive tá rolando uma identificação. Queria ficar deitada mastigando alguma coisa sem ninguém pra me encher o saco, mas infelizmente eu não sou um cão.


Você precisa da voz rouca do Tom Waits pro seu Natal ficar com aquele gostinho de amargura, fracasso e decadência. Pra escutar essa música, sugiro que antes você feche os olhos, finja que está num quarto escuro e sujo de hotel, fumando cigarro ruim e bebendo uísque barato. Você está sozinho no mundo, e é Natal. Sua família te odeia, você não tem emprego, nem companhia pra esquecer os problemas. Mas você recebe um cartão de Natal - de uma prostituta de Minneapolis. Aí aperta o play. De nada.


Eu choro de rir com essa música. Apenas CHORO. É a descrição detalhada e musical de uma vovó que exagerou na birita natalina e foi atropelada por uma rena. É pura poesia e magia. O clipe é mais sensacional ainda. 


ATENÇÃO: ESTA MÚSICA CONTEM O BOY GEORGE E O GEORGE MICHAEL.
ATENÇÃO: talvez você não saiba lidar com a fabulosidade desses Georges juntos.


O que dizer dos vocais afinados de Karen Gillan? Da cara de espirro iminente do Matt Smith? Da precisão musical de Arthur Darvill? A BBC nos trouxe o que há de melhor em músicas natalinas, com toda essa malemolência, essa facilidade em aprender as letras, a emoção que eles passam a cada nota cantada... Pega  meu lencinho, produção.


A Eartha Kitt é a rainha do mundo e se você não gosta dela cantando essa música eu também não gosto de você. Linda, fierce, sem precisar de muito cenário para ser totalmente chique e diva.


Cansou dos clássicos? Cansou daquela frescura toda de "eu quero amor pro Natal", "tudo o que eu quero pro Natal é você"? Ludacris é a solução perfeita para você! Uma batida hip hop, uma árvore de Natal decorada com papel higiênico (tá na letra, nem estou inventando), o que mais você quer de uma música natalina?


O que seria do Natal sem tradição? É uma lenda das músicas natalinas. Até fico emocionada quando escuto, ela realmente evoca todo o espírito natalino dentro do meu coração, me sinto aquecida por dentro até que começo a cantar esse refrão tão maravilhoso... Se o SEU Natal não tem essa música, ele é uma mentira.


Fico #CHATEADÍSSIMA quando peço sapatos feitos de pele de menina, um chapéu feito de pele de menino, o novo álbum do Slayer, uns ratinhos e uma serra elétrica e o Papai Noel me dá, sei lá, uma porra de um Game Boy.
Que eu vou fazer com essa merda, sabe.
Me dá uma caixa com um monte de pedras que dá no mesmo.


Eu não sei explicar o quanto eu amo essa música, o quanto ela reflete o meu espírito natalino, o quão genial é a letra. Liiiight me up put me on top let's f..lalalala, ho ho ho, under the mistletoe, yes everybody knows, we will take off our clothes...
Precisa de mais alguma coisa? Achei simples, achei direta, achei espírito do Natal.

Um Feliz Natal pra vocês <3




domingo, 24 de novembro de 2013

#30 - A Lista

written by Larissa Rainey at 23:17 0 comentários.

Se eu fizesse uma lista com todas as coisas que eu mudaria em mim, 
passaria o resto da vida escrevendo.
Eu queria ser mais cabeça fria, mexer no meu cabelo, suspirar e prosseguir com a vida. Tudo eventualmente se arranja. Idiotas continuarão sendo idiotas, não importa o quanto eu tente mudá-los. Eles não querem, e não vão mudar. Não é um conceito tão difícil de entender.
Eu queria ser mais impulsiva. Pensar menos. Refletir menos. Me pouparia muita dor de cabeça, muito desconforto e dores no coração. Eu dormiria bem melhor, teria a pele mais bonita, e olhos mais brilhantes - e não os olhos exaustos e sem vida que mostro por aí. 
Eu queria ser otimista. Olhar para a chuva e pensar "bem, pelo menos as plantinhas estão sendo regadas!". Observar o sol e amá-lo por brilhar tanto. Encarar uma situação ruim e pensar "bom, esta é a chance perfeita para eu me superar e aprender ainda mais a viver!".
Eu queria saber comuicar meus sentimentos e meus interesses. "Oi, olá, te acho uma gracinha, poderíamos ir ao cinema qualquer dia desses". Eu seria menos ansiosa e talvez não ficasse tão preocupada com os meus defeitos o tempo inteiro. Eu aprenderia a ser sociável e agradável.
Mas eu não sou assim. 
Se eu fizesse tudo o que está na lista com todas as coisas que eu mudaria em mim,
eu não seria mais eu.
Eu seria uma outra entidade, uma cópia perfeita - mas mecânica e falsa. 
Já que ser é preciso, que eu não seja uma cópia.
Eu sou o fogo incômodo que tento apagar a todo instante desde que nasci.

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Eu finalmente terminei as tais 30-crônicas-em-30-dias que acabou levando MESES pra terminar. Mas não me arrependo.
O blog está se tornando um conglomerado de textos pessoais. Esse ano li pouca ficção e vi poucos filmes, tudo por conta de vida acadêmica/trabalho. E pra ser sincera, cansei de escrever sobre filmes. Existem milhares de sites que falam sobre isso perfeitamente bem, e nos últimos tempos ando priorizando mais a minha escrita e a minha produção enquanto escritora. Talvez eu volte a escrever sobre filmes se algo realmente me animar, mas não  esperem muito de mim.
Porém, logo terei notícias pra vocês. Notícias boas. Quem curte mininamente o que eu escrevo vai gostar, acho. 
Não, não é sobre The Wandering Children... ainda.
;)

domingo, 10 de novembro de 2013

#29 - o insano monstro intergalático da cafeína

written by Larissa Rainey at 20:51 0 comentários.

eu deveria estar terminando minhas análises, mas não sai mais nada. eu não sobrevivo sendo forçada a fazer nada, eu preciso estar disposta. 
para não perder o pique das palavras e para dar um tempo pro meu cérebro respirar, decidi esquecer as minhas responsabilidades por um segundo e aproveitar a visita do Insano Monstro Intergalático da Cafeína.
veja bem, eu nunca tomo café. eu simplesmente odeio café. mas a cafeína se mostrou necessária nos últimos dias, e dei uma chance à essa bebida tão... tão... nojenta.
e foi assim que eu conheci o Insano Monstro Intergalático da Cafeína.
primeiro, ele colocou eletricidade em cada fibra do meu corpo.
comecei a digitar cada vez mais rápido, a ter ideias mais intensas. o sono e o cansaço ficaram pra depois. eu mal piscava. me senti o coelhinho da duracell, versão acadêmica. 
mas tudo que é bom não dura.
logo, o monstrinho (me recuso a escrever o nome dele completo de novo) subiu nos meus ombros. êta monstrinho pesado.
não dá pra fazer nada quando tem um monstrinho pulando em cima de você, puxando seu cabelo, enfiando o dedo no seu olho, te chutando, lambendo a sua orelha, rasgando a sua meia-calça.
engraçado como eu sempre tenho monstros ao meu redor.
será que isso significa que eu também sou um monstro?







domingo, 3 de novembro de 2013

#28 - histérica e racional.

written by Larissa Rainey at 23:08 1 comentários.

Ornette, por Leslie David


O mundo é uma lata de lixo azul e verde.
Vivemos numa sociedade que deixa à margem da miséria milhões de pessoas. Sem comida, sem água, sem saneamento básico e sem educação. Dizem-nos que faz parte do sistema. E para a parte da população que pode se alimentar, inventamos padrões estéticos impossíveis de serem seguidos. Dizemos a essas pessoas que elas não devem comer, que elas não merecem comer. Que a comida é o grande vilão. Deixamos essas pessoas desconfortáveis ao ponto do ódio pelo próprio corpo. Viva a base de sucos e tenha o corpo dos seus sonhos! No final das contas, ninguém merece comer - nem o miséravel, nem as celebridades milionárias.
Vivo entre pessoas que forçam laços familiares sem entenderem o conceito verdadeiro de "família". São obrigações e acusações e humilhações. Não existe respeito nem solidariedade. Cresci cercada de fofocas e mentiras. Mas eu deveria agradecer a tudo isso. Tudo isso serve a um bem maior. Mesmo que me façam acreditar que eu não sou merecedora da cama em que eu durmo. Mesmo que o meu corpo seja motivo de chacota. Pena que eles ainda não aprenderam que eu sou diferente da mulher que eles queriam que eu me tornasse. Eu queimei as caixas, e continuo queimando tudo ao meu redor. Não me interesso por falsidade nem por obrigações. Eu acompanho quem eu quero, o meu caminho me pertence. Eu reivindico o sangue que corre nas minhas veias. Ele é meu. De mais ninguém. Não force a sua mente tóxica tentando criar laços que jamais existirão.
Vivo entre a histeria total e a racionalização sistemática. Meu coração explode de sentimentos enquanto meu cérebro prepara as estratégias de guerra.
A guerra é contra o mundo, contra todas as amarras, contra mim mesma. 
Minhas armas são as cores que coloco nas minhas palavras.



sábado, 19 de outubro de 2013

#27 - Sobre Exaustão

written by Larissa Rainey at 23:25 0 comentários.

Ou fogem de mim, ou correm pelas minhas veias e contaminam o meu sistema.
Esse é o meu relacionamento mais sério, o meu amor mais profundo, a minha luxúria lancinante.
Nada me incomoda mais do que me sentir incapaz de escrever.
Tenho mil amores dentro de mim - mas prefiro morrer do que dizê-los em voz alta, a quem esses amores interessam.
Tenho mil berros presos na minha garganta que jamais verão a luz do sol.
Acumulo tristezas, cansaços e solidões. Mas também acumulo gargalhadas e um punhando de coisas boas.
Eu preciso rearranjar as letras do alfabeto para me sentir alguém. Eu preciso soltar as amarras da minha imaginação para conviver com a realidade.
Minha mente trava, se fecha, não consegue fazer mais nada. Faço conexões com personagens que nunca abandonaram meu imaginário - eles  precisam ser escritos. Minhas crianças precisam ver a luz  do dia. Eu tenho histórias, e devo contá-las.
A obrigação sempre mata a imaginação.

domingo, 15 de setembro de 2013

#26 - A Mansão dos Ecos

written by Larissa Rainey at 16:22 0 comentários.
Leaving the past

O espaço está preenchido com estruturas firmes. Tudo está em seu devido lugar, funcionando perfeitamente. As paredes não desabarão em cima de mim, o chão não quebrará, eu não cairei. As escadas me levam aos andares certos, sem hesitação. Não existem degraus falsos nem algum corrimão frouxo. O necessário para eu sobreviver sem me machucar está bem na minha frente. 
Mas enquanto eu subo as escadas, o que era tão certo se perde na eletricidade dos gritos que escuto. Olho para os lados, deixo uma mecha de cabelo atrás da orelha para nada atrapalhar minha visão. Continuo andando, desconfiada. Tem algo errado, eu sei que tem. Eu ainda não enlouqueci. Isso não é paranoia.
Abro a única  porta do segundo andar. Não está trancada - e isso me deixa em estado de alerta. O chão  está coberto de areia suja, e o ar está tão quente e úmido que qualquer passo torna-se uma caminhada árdua. Reencontro todos os brinquedos que perdi em mares distantes. Esqueço o meu cansaço e começo a fazer esculturas de areia, com minhas mãozinhas rechonchudas e desastrada - e pela primeira vez, consigo construir um castelo aceitável. Eufórica com minha nova construção, mal noto os pingos d'água que começam a cair em meu rosto. Só percebo algo quando o quarto inteiro está tão alagado. Na minha ânsia de sobreviver, nadei para fora do meu pequeno paraíso de areia. A porta se fecha, sem muito barulho. Tento abir a porta novamente para construir outro castelo - o quarto está trancado. Só me resta subir as escadas.
Não fico por muito tempo no  terceiro andar. O corredor treme com o som da rejeição. A firmeza das minhas estruturas me enganou novamente. Para alguém como eu, não existe lugar seguro na Terra.
Finalmente subo até o quarto andar. Revejo rostos familiares, e por meio segundo fico aliviada. Mas lágrimas e vozes trêmulas compõem a cena. Minha única vontade era sumir daqui.
"A única vontade dela era sumir daqui", escuto alguém dizer. Candelabros de bronze pendurados na parede iluminam o caminho - meus passos hesitam em seguir em frente, mas seguem. 
Uma onda de pânico absoluto me toma por inteira quando vejo que estou em um funeral. Aquela era eu. 
Aquela era eu. 
Corro até onde consigo. Aquela não sou eu. Aquela não sou eu. Perco-me num labirinto escuro de mágoas até encontrar mais uma escada.
Os cupins estão roendo a madeira do corrimão. Um degrau firme, para tantos outros falsos. Quando olho para o chão, vejo que o  abismo está me esperando - um abismo pronto para me devorar e me transformar em gelo puro. Mas eu não tenho pra onde ir. Nunca tive. Sempre com os olhos no horizonte, agarrada à promessa de Um Futuro Melhor. Apaixonada pela improbabilidade de algo dar certo. Só visto os fiapos que a esperança me deu. 
Eu não sei o que o sexto andar me espera. Mas não posso voltar a bater nas portas que se fecharam para mim. 
 

Larissa Rainey Copyright © 2012 Design by Antonia Sundrani Vinte e poucos